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29-07-2010


Um sono perigoso

Médicos procuram entender o porquê de um mal que tira a vida de bebês



26/07/2010 -Correio Braziliense
Jornalista: Paloma Oliveto

Médicos procuram entender o porquê de um mal que tira a vida de bebês aparentemente saudáveis no mundo inteiro, ainda no berço. A doença é tão misteriosa que nem mesmo a necropsia identifica as razões do fenômeno

O bebê parece apenas dormir profundamente. Mas ao tentar despertá-lo, os pais percebem que ele não respira mais. A tragédia da perda de um recém-nascido aparentemente saudável fica sem explicação. Nem mesmo uma necropsia consegue revelar a causa do óbito. A síndrome da morte súbita do lactente, também conhecida como morte no berço, assusta pais e mães e continua um mistério para a medicina. Porém informações sobre os fatores de risco ajudam a prevenir o mal que, nos Estados Unidos, atinge 0,51 em mil nascidos vivos.

A posição da criança no berço é apontada por pediatras como a principal forma de prevenção. Embora ainda não se saiba o que acontece, já foi comprovado que dormir de bruços ou de lado favorece a morte no berço. As primeiras pesquisas tiveram início na década de 1960, quando pais de crianças que morreram subitamente fundaram uma associação nacional, nos Estados Unidos, e realizaram a primeira conferência nacional sobre o assunto. Seis anos depois, no segundo encontro, o óbito inexplicado dos recém-nascidos foi considerado uma patologia, e, a partir de dados estatísticos, foram estabelecidos alguns fatores de risco: bebês com baixo peso ao nascer, do sexo masculino, nascidos em classes sociais mais baixas e de 2 a 4 meses de idade eram as maiores vítimas do mal.

O primeiro relato da síndrome da morte súbita do lactente está na Bíblia. Na história de Salomão, há uma situação em que a mãe dorme em cima do filho, ele morre e ela troca o bebê por outra criança. Foi preciso esperar até a década de 1960 para começarem as pesquisas, lembra a cardiologista pediátrica Cristina Chaves Guerra, do Instituto do Coração, em Taguatinga. De acordo com ela, até então acreditava-se que a morte ocorria devido a um acidente, assim como o relato bíblico, e era sobre os pais que caía a culpa.

Apesar dos avanços da década de 1960, foi no início dos anos 1980 que, ao investigar a cena do óbito, os pesquisadores concluíram que as mortes aconteciam quando os bebês dormiam de bruços. Foram feitas campanhas sobre a posição correta e, em 10 anos, a mortalidade caiu consideravelmente, observa Cristina. De acordo com o Instituto Americano da Síndrome da Morte Súbita do Lactente (American Sudden Infant Death Syndrome Institute, nome em inglês), em 1980, a incidência era de 1,53 casos em cada mil nascimentos. Em 2004, o índice havia sido reduzido em 75%.

No Brasil, não existem dados nacionais consolidados sobre a incidência. Não se tem ideia de quantos recém-nascidos morrem de morte súbita porque há subnotificação, afirma o pediatra Renato Rocianon, presidente do departamento científico de neonatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria. Mas se imagina que muitos bebês vão à morte no Brasil por causa da síndrome, e a Pastoral da Criança procura fazer um trabalho de orientação para os pais, diz.

Desinformação
Uma pesquisa realizada em Passo Fundo (RS) mostrou que a desinformação ainda é grande. Participaram 2.285 lactentes, sendo que 86% pertenciam às classes C, D e E, das quais 78% das mães admitiram que colocavam a criança para dormir de lado, uma posição também associada à morte súbita infantil. Mas 88,5% nunca haviam deitado o bebê na posição mais perigosa, de bruços. A pesquisa indicou que menos da metade dos médicos fazem recomendações sobre o posicionamento da criança no berço  das 13 mães que receberam a orientação, somente uma colocou o filho para dormir com a barriga para cima.

Além disso, aos 3 meses, segundo o estudo, os bebês já passam a dormir sozinhos em um cômodo, e 77% vão para o berço com duas peças sobre o tórax. ?Dos 1.280 lactentes que dormem em berços próprios, 96% são posicionados com os pés distantes da borda inferior do berço, em vez de ter os pés encostados na borda inferior do berço, conforme é recomendado para evitar o deslocamento sob as cobertas e a suscetibilidade à inalação de gases expirados, ou à exposição ao superaquecimento ou a acidentes?, diz a pesquisa.

A professora canadense Jannet Alba, 35 anos, passou pela dor de perder o filho recém-nascido, uma década atrás. Michael nasceu em 13 de fevereiro, de oito meses. Era muito esperado pelos irmãos mais velhos Marty, 5 anos, e Hannah, 8. A Hanna ficava com o ouvido grudado na minha barriga, para escutar os chutes do Michael. E o Marty já se imaginava brincando, correndo pela casa com o irmãozinho, relata Jannet. Como era prematuro, o bebê precisava de muito amor e apoio, um desafio que nós aceitamos de bom grado, diz a professora.

Dois meses depois, porém, Michael acordou morto. Ele tinha muito a viver e nós, muito a oferecer. Infelizmente, Deus resolveu levá-lo. Ainda penso por que isso aconteceu. O Michael trouxe alegria para nossas vidas. Pelo pouco tempo que estive com ele, posso dizer que seria uma pessoa muito amorosa, conta a mãe. Apesar de ter nascido um mês antes do previsto, o bebê era saudável e não tinha problemas de malformação. Ele dormia de bruços  no mesmo quarto que Jannet e seu marido, Albert. Pela manhã, ele estava normal. Mamou, sorriu para mim. O Albert foi trabalhar e eu estava na cozinha, preparando o almoço. Ele estava quietinho. Resolvi vê-lo e, quando cheguei, percebi que Michael já não vivia. Estava arroxeado e inerte.

Jannet entrou em depressão, largou o emprego e demorou muito para lidar com o sentimento de culpa que, até hoje, a persegue em determinados momentos. Um acontecimento como esse desestrutura toda a família. Meus filhos simplesmente não conseguiam acreditar no que havia acontecido. O Marty perguntava: Mas, mamãe, ele não vai brincar comigo nunca, recorda Jannet. A professora separou-se do marido e foi morar em Nova York com os pais e as crianças. Para ajudar a superar o trauma, contou com o apoio da American Sudden Infant Death Syndrome, uma instituição não governamental americana. Todos os dias rezo para meu pequeno Michael. Ele está lá, cuidando da gente, acredita.

Pela manhã, ele estava normal. Mamou, sorriu para mim. Eu estava na cozinha, preparando o almoço. Ele estava quietinho. Resolvi vê-lo e, quando cheguei, percebi que Michael já não vivia. Estava arroxeado e inerte?
Jannet Alba, professora canadense
Jornalista: Paloma Oliveto
Link: http://www2.correiobraziliense.com.br/cbonline/saude/pri_sau_116.htm


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