14-05-2009
Remédio não é docinho
Sabor é uma armadilha
Outras pesquisas mostras que esses registros têm se tornado freqüentes no Brasil. No último levantamento do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), da Fiocruz, os principais agentes de intoxicação em crianças menores de 5 anos - a fase oral e de grande interesse pelo meio em que se vive - são medicamentos (36,1%), seguidos por artigos de higiene e desinfecção (21,6%). Até os 14 anos nas intoxicações por diversas substâncias, 98,7% dos episódios ocorreram em casa; a maioria meninos (58,2% dos pacientes).
- Quase sempre as intoxicações acontecem por descuido. Há casos em que a criança encontrou o remédio ainda na embalagem, mal fechada e jogada na lata do lixo. Meninos e meninas tendem a repetir o mesmo comportamento dos adultos. Mesmo drogas de venda livre, como paracetamol e ácido acetilsalicílico, causam problemas graves se mal usados - alerta a pediatra Maria Cristina Silveira, chefe da emergência do Hospital Pequeno Príncipe.
Um outro estudo do Centro de Assistência e Informação Toxicológica de Campina Grande (Ceatox), apresentado na última reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), confirma que as intoxicações agudas em crianças são um grave problema de saúde pública. A falta de prevenção é apontada como um fator importante.
Na análise de dados de três anos, a equipe do Ceatox somou 662 casos de intoxicações por medicamentos; 127 deles (19,1%) na faixa de 0 a 12 anos, sendo 65,4% (83 crianças) de 1 ano a 4 anos. E também houve prevalência do sexo masculino, com 70 casos (55,1%). As principais circunstâncias foram acidentais (75,2%), principalmente com neuropsicofármacos.
Rosiani Guetter Mello Zibetti, coordenadora do curso de farmácia da Faculdade Pequeno Príncipe, diz que a recorrência preocupa. Ela lembra que adultos têm o hábito de guardar medicamentos em armários na cozinha, área próxima a alimentos. Isso leva a criança a pensar que pode ingerir esses produtos. Outro erro é estimular o consumo de remédios na infância.
- Pílulas coloridas, embalagens bonitas, odor e sabor adocicados despertam a atenção e curiosidade natural. Para forçar os filhos a tomar o medicamento, alguns pais ou responsáveis dizem que é uma "balinha" ou "docinho". Isso aumenta a chance de acidentes - alerta Rosiani. Dependendo da dose e do peso da criança, há risco de morte.
Fígado pode sofrer lesões
Para Maria de Fárima Goulart Coutinho, presidente da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio, qualquer medicamento oferece risco. Além de acidentes com antitérmicos, descongestionantes, antigripais, antialérgicos e calmantes, há relatos de intoxicação por drogas para asma e mal de Parkinson:
- O sabor é um motivo para experimentar. Por sorte, algumas drogas perigosas, como barbitúricos, têm gosto ruim.
Cápsulas e vidros coloridos atraem Larissa Siqueira, de 2,7 anos. Mas a menina aprendeu que remédio não é guloseima.
- Ela não tem o hábito de levar nada à boca, o que reduz o risco de acidentes - diz Simone, mãe de Larissa.
A alergia a determinadas substâncias é difícil de prevenir. Só se descobre isso quando ocorre. E nem sempre é no primeiro contato. Paracetamol e dipirona estão mais associados a esses casos. Há pessoas que manifestam reações fortes.
Em episódios graves, e se a criança não for socorrida a tempo, ela poderá sofrer sequelas irreversíveis, segundo a pediatra. Pode ocorrer insuficiência respiratória, diminuindo o fluxo de sangue oxigenado para o cérebro. Leigos não devem tentar qualquer tipo de primeiros socorros, mas procurar emergência:
- Dependendo da fórmula ingerida, forçar vômito pode causar pneumonia por aspiração.
O problema acontece ainda por uso incorreto de remédios, como os de venda livre. Às vezes, quando um filho tem febre, pais ansiosos querem resolver rapidamente e abusam de antitérmicos ou analgésicos. Um perigo para o fígado.
- Todo medicamento tem efeito tóxico - conclui Rosiani.
Como prevenir acidentes
LUGAR SEGURO: Pílulas coloridas, embalagens bonitas, odor e sabor adocicados despertam a curiosidade natural das crianças. Nunca se deve falar com a criança que o medicamento é doce. Não estimule essa curiosidade e mantenha os medicamentos e produtos domésticos trancados, fora da cozinha e do alcance delas. Especialistas do Sinitox, com base em orientações da Academia Americana de Pediatria, ensinam que os frascos de medicamentos devem ser fechados com a tampa de segurança logo após o uso. E quando jogar as caixas no lixo, elas devem estar num saco bem lacrado. Todos os medicamentos que não estão sendo usados devem ser descartados de forma segura.
CUIDADO COM O EXCESSO: Qualquer medicamento precisa de um tempo para fazer efeito. Não existem remédios mágicos, de alívio imediato, lembra a farmacêutica Rosiani Zibetti. Criança não é um adulto em miniatura e a dose do medicamento é específica para essa faixa etária. Os medicamentos sem tarja, como paracetamol e dipirona, podem causar problemas sérios de saúde, inclusive de fígado, quando tomados de forma incorreta. E substâncias para "abrir o apetite" só devem ser consumidas com indicação médica.
CADA UM NO SEU LUGAR: As substâncias tóxicas e medicamentos devem ser mantidos em suas embalagens originais e nunca passados para outras.
ATENÇÃO AO USO: Evite tomar remédio na frente de crianças e cuidado com medicamentos de uso infantil e de adulto com embalagens muito parecidas. Não dê remédio no escuro porque isso pode causar trocas perigosas. Leia sempre o rótulo e a bula antes de usar qualquer substância.
EM CASO DE INTOXICAÇÃO: Na hipótese de a criança ter ingerido substâncias tóxicas, a primeira atitude é entrar em contato, por telefone, com um centro de assistência toxicológica para receber orientação. Dessa forma, o número do centro deve estar sempre disponível. O site do Sinitox (www.fiocruz.br/sinitox) oferece uma lista de centros por região.
Fonte: O Globo
Jornalista: Antônio Marinho
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